O alvo, na certa, não te espera.

Às vezes eu paro pra pensar que geralmente escrevo aqui pra reclamar das coisas. Mas não é isso e na verdade eu nem sou assim. Quem me conhece sabe. Acho que blog, principalmente desse tipo pessoal como o meu, acaba sendo um depósito de vários sentimentos embaralhados, com o fim não apenas em desembaralhar, mas em fazer se entender. Não é só deixar registrado, ou emitir opinião. É vida mesmo. Normal. Como várias outras por aí. Às vezes, relatar uma conquista pode soar soberbo demais (errado né?), ou a felicidade é tanta que nem quer se compreendida. Aí acaba que o mar de lamúrias derrama suas graças por essas páginas digitais, não deixando espaço pra mais nada. É triste quando chega nesse nível, mas não tem muito o que fazer. Nem todo mundo tem a dádiva de uma vida perfeita, cheia de café quente em manhãs frias, e uma vista maravilhosa, sem tela de proteção.

Ontem planejei bem o dia de hoje. Acordei, levei Nicolas pra escola, voltei, tomei banho, me arrumei e fui ao salão fazer a 5ª aplicação de tratamento no cabelo. Eu já saí de casa disposta a dar um corte, pensando que de nada adianta ter o cabelo enorme se as pontas estão zoadas. A cabelereira perguntou naquela altura estava bom e mandei ela subir mais. Sente a audácia! Volto pra casa linda e serelepe quando, no caminho, recebo uma ligação do Léo. Estranhei, mas atendi. Não era nada. Estranhei de novo, já que ele nunca liga perguntando se já estou chegando. Desliguei ao som de váááárias buzinas impiedosas e segui meu rumo. Chego em casa e encontro a seguinte situação: a pessoa totalmente surtada (com razão!) por que pela segunda vez cancelaram a cirurgia que ele deveria fazer. Obs.: Deveria fazer AMANHÃ! Não me avisou no telefone para não me deixar nervosa.

Pois é, estava tudo pronto. Exames em dia, tudo confirmado. Mas sabe-se lá Deus por quê, a secretária achou por bem confirmar algo sem ter confirmado. E agora estamos aqui ligando pra todos os telefones do mundo (se tocar aí, sou eu!) tentando de tudo para resolver a situação. Com o plano, com o hospital, com o cirurgião e com a louca que confirma coisas até então não confirmadas. Ninguém atende. Exceto a mocinha irritantemente educada do autoatendimento. Pode mandar ela tomar no cu que ela não liga. Complexo de Polyanna.

E quando atendem? Depois de te rebaterem que nem bola de ping pong por todos os ramais disponíveis na face da terra, te pedem para encaminhar um e-mail com todos os dados para que em SETENTA E DUAS HORAS te respondam com o orçamento. E pensar que se aquela que confirma sem ter confirmado tivesse dito que “o hospital não aceita o seu plano”, tudo isso já teria sido resolvido. Há “setenta e duas horas + paciência” atrás. Mas não. E o irônico é saber que agora eles estão nos ajudando a resolver essa questão. Que diplomático não?

A cereja? A minha “audácia” capilar, neste momento, está há exatas quatro horas oficialmente despercebida.

Eu devia ter pedido o corte do Neymar…

 

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Como eu era antes de você – Jojo Moyes

Como eu era antes de você – Jojo Moyes

Nunca pensei que fosse resenhar um livro na vida, mas não teve como deixar esse de lado. Sempre gostei de ler, e há algum tempo sentia falta de não ver a hora passar por estar presa em alguma leitura. Meus últimos livros eram um pouco didáticos demais, sobre como perder peso ou entender sobre energias e reações. E a verdade é que quase nunca chego ao final deles. Isso explica querer falar sobre Como eu era antes de você, tendo em vista que, quando dei por mim, já estava na metade de um livro de 320 páginas. Não esperava muito do livro mas não pude deixar passar em branco a expectativa de encontrar, naquelas linhas, alguém que eu procura aqui fora, no mundo real. E convenhamos, provavelmente não existe.

— Você disse que tem muita facilidade para lidar com pessoas. E parece gostar de… roupas… teatrais. — Ele lançou um olhar para minha meia-calça, que era verde e brilhante. Pensei que aquela meia pudesse me animar. Thomas tinha cantarolado a música-tema de A Pequena Sereia durante todo o café da manhã.

O livro conta a história de Louisa Clarck, uma mulher de 26 anos, sem muita ambição na vida, que trabalha no café The Buttered Bun e mora perto do castelo Stortfold, ponto turístico da Cidade. Do outro lado, Will Traynor, um homem de 35 anos, rico, aventureiro, ambicioso e ativo, que perde os movimentos após um acidente. Duas pessoas completamente diferentes que acabam sendo unidas pela vida. Quando o chefe de Louisa lhe informa que terá de fechar o café, ela se vê sem emprego e sem muita possibilidade, tendo em vista sua falta de qualificação para qualquer coisa. É quando, mesmo muito resistente, se candidata à vaga oferecida pela família Traynor, de cuidadora de Will, um tetraplégico. O começo acaba sendo um pouco traumático, tendo em vista que Will se tornara hostil e mau-humorado. Mas aos poucos a relação deles vai se estreitando, ao ponto de duas personalidades tão diferentes, ensinarem tanto uma a outra.

— A echarpe? Por quê?
— Não combina. E parece que você está querendo esconder alguma coisa.
— Mas… assim todo o decote vai ficar aparecendo.
— E daí? — Ele deu de ombros. — Escute, Clark, se for usar um vestido assim, tem que se sentir segura. É preciso vesti-lo mental e fisicamente.
— Só você, Will Traynor, para dizer a uma mulher como ela deve usar um maldito vestido.
Acabei tirando a echarpe.

Um amor puro e afetuoso pode nascer onde menos esperamos. Não pelo fato de ele ser tetra, mas pelo fato de serem de universos tão diferentes. Eles mesmos comentam em determinada altura do livro, ela provavelmente nunca teria sido notada pelo Will de antes. Foi nesse momento em que percebi que o titulo do livro poderia ser muito mais abrangente do que pensei. É legal pensar na propria vida nessas horas. E pensar que existem pessoas divisoras de águas na nossa vida também. Pessoas que aparecem como um caminho, ou como um cometa, mas independente da quantidade de dias que passamos juntos, nos ensinam ou transmitem alguma lição que nos muda daquele momento em diante. Nos fazem rever nossas escolhas e atitudes perante nossa propria vida.

Achei legal também que, nesse livro, a autora reserva alguns capítulos para relatar a visão do ponto de vista de outros personagens, o que nos permite enxergar e entender outras perspectivas. Da mãe e do pai de Will, do enfermeiro e até mesmo da irmã de Louisa. A mensagem que o livro nos deixa, em meio a todas as emoções que ele é capaz de nos fazer sentir, é que cada pessoa tem seu fardo, e que somente ela tem o direito e o poder de decidir como carregá-lo. Um livro surpreendente, que nos mostra mais uma vez, que certo e errado é apenas um ponto de vista.

— Então vou dizer uma coisa boa — anunciou ele, e esperou, como se quisesse ter certeza de que tinha minha atenção. — Alguns erros… apenas têm consequências maiores que outros. Mas você não precisa deixar que aquela noite seja aquilo que define quem você é.

Como eu era antes de você – Jojo Moyes
Editora Intrínseca | 320 páginas
ISBN:9788580573299
Nota:

Leia aqui o primeiro capítulo.

Já leu esse livro? Gostou?

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Os dentes do cavalo dado

cafe-da-manha

Seria como um dia qualquer, ninguém me tira da cabeça. Todo ser humano recorre à memória quando necessário. Ele não gosta que eu desconfie do seu esquecimento, mas nunca me deu uma prova sequer de que eu estivesse enganada. É o nosso pesadelo particular antes de cada data festiva. Sim, é isso mesmo, estou falando sobre o dia das mães. E também sobre aniversários, dia dos namorados, nem mesmo o Natal é poupado. Estou falando sobre a escolha de construir uma relação de amor com alguém que não sabe dar presentes. E essa (nossa) história começa em junho de 2005.

Não devemos reclamar do que ganhamos, “eles” dizem. Mas como vocês sabem, eu já cansei de dar ouvidos a “eles”. Então esse ano resolvi fazer diferente. Abri mão dos bilhetes espalhados, dos suspiros ofegados e das indiretas soltas após o jantar. Decidi que era hora de tirar os pratos, jogar a toalha e pôr as cartas na mesa.

- Esse ano quero café da manhã na cama. E quero chocolates e um presente.
- Oi?
- Dia das mães! Quero café da manhã, chocolates e um presente.
- Tá ué… mas que presente?
- Sei lá, aí fica a seu critério.
- Hum…
- Ou não, fica a meu critério, quero ou uma bolsa, ou uma bota ou uma dessas camisetas podrinhas.
- Camiseta podrinha? …Ok.
- Não. Deixa, você não vai saber comprar. Fico entre a bota e a bolsa. Pode ser?
- Pode…
- Agora o café da manhã tu se vira, estamos juntos há 8 anos, impossível você não saber do que eu gosto. Só peço que não esqueça de colocar coisas salgadas dessa vez. Aquele ano dos 5 tipos diferentes de torta de chocolate foi tentativa de homicídio, eu bem sei!
- Tá bom, pode deixar, eu coloco algo salgado dessa vez.
- Pode ser misto quente! ♥
- Tá… Pode deixar.
- E chama o Nicolas pra ajudar, ele gosta de ajudar nessas coisas, vai ficar todo serelepe.
- Vou chamar!

É, eu sei, eu sou chata. Mas ele também é, só que não demonstra tanto. Todo mundo é chato, não adianta, é um princípio humano, eu não sou diferente. A diferença é que dessa vez optei por não fazer cara de cerâmica e tornar o troço mais fácil, pra ele e pra mim. Nosso histórico de presentes em datas festivas tem potencial suficiente para fazer renascer as risadas das piadas do Costinha, acredite. Vamos combinar também que dar presente em datas “obrigatórias” já é traumático o bastante para nós dois.

Fiz uma escolha e não me arrependo. Pelo contrário, recomendo a todos que sofrem do mesmo mal. Abri mão da espontaneidade frustrada e optei por portas e janelas de  satisfação garantida. Cavalo dado não se olha os dentes, ok. Mas não vejo tanto problema em deixar o cartão do odontoequino, como quem não quer nada, em cima da mesa também.

Esse ano ganhei um café da manhã delicioso, com direito à trufas de sabores variados, misto quente de pão integral, suco de soja (opa! era o de maçã!) e até fruta! Ganhei também uma bolsa linda e uma bota de camurça com tachinhas. ♥

Esse lance de “tem que ser surpresa” não funciona para todo mundo, já reparei. O grande lance é saber reconhecer isso e facilitar. As pessoas não vêm com manual de instrução, as dicas de uso vão sendo elaboradas conforme convívio e temos que saber perceber o que é melhor pra cada um, sem neurose.  Essa é a nova regra da casa, só sendo revogada na presença de uma bola de cristal. Até lá, estamos muito bem, obrigada.

 

 

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