all you need is…

Chegar do mercado e catar um espaço minúsculo para pôr as compras em cima da mesa.
Só que ela não está mais aqui, posso colocar no chão.

No meio do almoço, pegar rapidamente uma parte de comida que sem querer, deixei cair.
Só que ela não está mais aqui, posso limpar depois.

Sair pra buscar Nicolas na escola, com o maior cuidado pra não fazer barulho de chave na fechadura.
Só que ela não está mais aqui, posso fazer o barulho que quiser.

Subir da garagem correndo, pra que a solidão dela dure menos tempo.
Só que ela não está mais aqui, posso subir com calma e no meu tempo.

Quase acordar o Léo por que tenho que passar por cima dele na hora de ir pro meu lado da cama.
Só que ela não está mais aqui, eu poderia ter ido por outro lado.

E fora isso ver o relógio e saber que não tem mais alarme de remédio pra dar. Olhar o chão e não ter mais aquela companhia aqui no escritório na hora do trabalho. Não ter que repôr a água, nem a comida. E até receber a fatura do cartão e ver as parcelas das compras de remédio, ração, caminha.

Espaço vazio.

Como aquela pessoa que perde uma parte do corpo mas ainda sente, apesar de invisível.

Vontade de gritar igual a uma criança mimada às vezes, dizendo que é injusto, que ta doendo e que eu quero (exijo!) ela de volta. Mas ao mesmo tempo saber que não existem “preferidos” na vida, que somos regidos pelas mesmas leis e que tudo faz parte de um processo que todos terão que passar, sempre. Ao mesmo tempo tentar me convencer de que é tudo muito natural, e que a visão que temos sobre a falta de alguém ainda é um preconceito e falta de percepção e informação da maioria. Como se “ser ignorante” em relação ao assunto, fosse fazer com que nos sintamos mais protegidos. Por que no final achamos que podemos dar sorte e justamente com a gente, acabar sendo diferente.

Mas não é, e o destino chega pra todos.
E em resumo sei que fomos MUITO, muito abençoados.
E que eu não tenho do que reclamar.
Nem nunca terei, deu tudo certo.

Mas eu queria saber onde você está, se está comendo (se é que precisa), se está farejando tudo. Se está feliz, se arrumou alguém pra brincar. E de alguma forma, egoísta ou não, se também sente falta de mim, como eu sinto de você. Mas eu confio em algo muito maior, por que você me ensinou a acreditar. E em nome disso, sei que um dia ainda vou te abraçar e beijar muito, e sentir sem cheirinho de novo.

Mais uma vez, quero te dizer: Te amo!
Apesar de tudo, mamãe está bem e rezando muito pra que você também esteja.
Eu aprendi que esse sentimento estranho de vazio leva o nome de luto.
E ele tem tempo mesmo, é normal, mas vai passar.

E eu tenho muitos bons sentimentos em relação a tudo isso.
E no final, acho que isso quer dizer que está tudo bem, como tem que ser mesmo. E sempre estará tudo bem. Eu sinto você, por que dentro de mim, você continua como sempre foi. E estranhamente não me sinto mais sozinha, por que você existe, e sua presença é clara e nítida. Talvez seja estranho ou errado sentir assim, mas é o que eu sinto.

Espero que você esteja bem.
Sei que está.
É o que eu sinto.

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3 Responses to all you need is…

  1. carol says:

    tenho certeza que ela esta bem… E realmente, nesse inicio principalmente, a casa fica vazia e somos guiados pelo condicionamento e nos deparamos com inumeras situacoes e manias que criamos com eles. Algumas continuam, ou vao embora com o tempo…
    Mas lembrancas que hoje doem, com o tempo viram saudades boas, lagrimas de dor se transformam em lagrimas de saudosismo e se tornam raras.
    Mas fica bem, pq ela esta bem.

  2. Erika says:

    Você me emocionou, Aline. Tão lindo esse sentimento todo, essa confusão toda de sentimentos, na verdade.
    E esse amor incondicional, essa saudade…
    Também tenho certeza que ela está bem e que você também estará em muito breve.
    Lindas suas palavras. Adorei isso aqui, viu?
    Beijos.

  3. at says:

    chorei… :’(((

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